Carta dos Estudantes de Economia  em Defesa da Democracia



Atualmente nos encontramos em tempos difíceis para a democracia brasileira. Em todo o país se tornam recorrentes notícias de violências geradas em virtude da intolerância. Assassinatos e relatos de agressões a grupos e minorias, ameaças racistas, homofóbicas e machistas, tudo isso ameaça os direitos cívicos e humanos de cada cidadã e cidadão em nosso país e, ainda, gera medo de que nossa liberdade seja cerceada e de que pairemos sob o autoritarismo. É por essa razão que neste momento de incertezas nos posicionamos, como estudantes de Ciências Econômicas do Brasil, em defesa da democracia e da liberdade de expressão.

Para isso, é fundamental resgatarmos a nossa história. Se chamamos o período em que vivemos de sexta república é porque em sua constituição residem os sonhos de um povo em suas diversas lutas contra todas as formas de autoritarismo, resistindo a regimes exploratórios e totalitários, lutando pela liberdade de expressão e de autonomia.

O período mais recente em que vivemos tal repressão foi a ditadura militar (1964-85) e, mesmo passados 33 anos do fim do regime, suas feridas ainda são sentidas por nossa jovem democracia. A perseguição política aos opositores, a não participação de civis nas decisões do governo, a institucionalização da tortura e do assassinato como práticas de Estado, medidas de um governo totalitário pautado pelo medo, ainda pulsam na memória das principais vítimas do regime. As instituições ainda possuem marcas desse processo, em que muitas delas foram reprimidas e transformadas aos mandos dos militares. E as instituições de organização estudantil estão entre essas que foram duramente reprimidas pelo seu caráter de resistência à ditadura.

A UNE (União Nacional dos Estudantes) é um dos grandes exemplos dessa resistência. Na madrugada do golpe, do dia 31 de março para o dia 1º de abril de 1964, a sede da união foi metralhada, queimada e invadida. Sua organização foi criminalizada e vários estudantes foram perseguidos e executados, como o então presidente da união, Honestino Guimarães, morto em 1973. Ainda assim, seus estudantes resistiram e se organizaram em clandestinidade. Até chegar ao caso marcante do 30º Congresso da UNE, em Ibiúna (SP) no dia 12 de outubro de 1968, quando aproximadamente 1.000 estudantes foram presos por se reunir politicamente. A repressão à UNE marca também a criminalização da nossa organização, a FENECO (Federação Nacional dos Estudantes de Economia), filiada à UNE.

Também não foram poucos os estudantes de economia vítimas do autoritarismo. Como é o caso de Stuart e Sônia Angel, casal de estudantes de economia da UFRJ torturados e mortos durante a ditadura pelo ato de “subversão” ao se organizarem em grupos de resistência e oposição ao regime. Além dos estudantes, professores de nossas faculdades também sofreram com a repressão, como Norberto Nehring, economista e professor de economia da USP, morto e torturado pelos militares. Lembrar a morte dessas pessoas que estavam em lugar semelhante ao nosso em tempos não tão distantes, é valorizar sua vida de resistência e de luta pelos direitos humanos, e é não esquecer as consequências de um governo autoritário e ditatorial para o país.

Sabemos que o Brasil se encontra em um momento de incertezas e de crise econômica, política e moral. Sabemos que, nesses tempos, a sede por transformação e por condições melhores de vida é latente, e que o momento das eleições é um momento de mudança e também de tensionamento. Entretanto, acreditamos que a crença na justiça, na dignidade humana e na liberdade, valores enraizados em nossa Constituição Federal e símbolos de nossa democracia, serão mais fortes que a intolerância e que a violência que hoje nos assombram.

Relembramos os momentos duros de nosso passado como nação para que não tenhamos que repeti-los. Por isso, é inaceitável que ainda hoje discursos racistas, xenofóbicos, homofóbicos, machistas, discursos em favor da ditadura, da tortura e da violência aos que pensam diferente sejam aceitos em nossa sociedade.

A Federação Nacional dos Estudantes de Economia se junta a todos os estudantes, professores cidadãos e entidades que representam os estudantes como a UNE e que acreditam na liberdade individual, nos direitos humanos, nos direitos cívicos e na democracia, neste manifesto em defesa do nosso Estado democrático de direito e da liberdade de expressão e de organização.

Brasília, outubro de 2018.

FENECO, UNE, UEE-SP, CAVC (Fea-Usp), DAE-UCP, CASA (IE-UFRJ), CAECO UFPE - CAA, CAECO - UFMA, CACEC - UFAM, CACEF - UFS , CAECO PB - UFCG, CAECO ZM -UESC, CAECO MACEIO -UFAL, CAECON - UFPA, CAECO - UFRN, DAECO - UFRPE, CAECO PB - UFG, CAECF - UFOPA, CAECO - UNB, CAECO Martins Filho - URCA CRATO, CACEI - URCA , Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Goiás - DCE UFG.

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