Como mudar o jogo: uma introdução a Economia do Esporte


Qual é o campeonato de futebol mais equilibrado do mundo? Será que o salário dos jogadores de futebol é justo? O que os países que ganham medalhas em Jogos Olímpicos têm em comum? Estas e outras questões, que geram acaloradas discussões nos bares e noticiários esportivos, podem ser debatidas com conceitos de Economia do Esporte. Vamos trazer linhas gerais para responder estas perguntas ao longo do texto.



É muito difícil definir Economia, mas uma tentativa simples é dizer que “Economia é o conjunto de atividades desenvolvidas pelos homens visando a produção, distribuição e o consumo de bens e serviços necessários à sobrevivência e à qualidade de vida”¹. Como campo de estudo, é defini-la como uma ciência social, que estuda incentivos, gestão de recursos escassos entre fins alternativos e como estruturas e aparatos institucionais afetam resultados e pessoas.


O campo de Economia do Esporte possui muitas possibilidades para testar esta definição. Podemos entender recursos escassos como atletas, torcedores, equipes esportivas, assentos de arquibancada ou orçamento anual de um clube esportivo. São tarefas desafiantes definir a alocação ótima destes recursos, por meio dos incentivos corretos, em meio a uma dada estrutura organizacional que se modifica somente no longo prazo. Ainda mais quando paixão e política se misturam.


O campo de estudo é relativamente recente. O primeiro artigo científico, apontado pelo livro-texto introdutório de Szymanski (2009)² é de Rottenberg (1956)³. Mas sua institucionalização, entendida como ter uma Associação Internacional (International Association of Sports Economists – IASE), ter um periódico próprio (Journal of Sports Economics), estudos publicados em revistas científicas genéricas de Economia (como o American Economic Review) e livros didáticos só data a partir dos anos 2000, de acordo com Andreff e Szymanski (2006)⁴.

A área possui quatro temas principais. O primeiro tema é a Teoria Econômica. Basicamente, ela consiste na aplicação de modelos microeconômicos de firmas e consumidores aos problemas do Esporte. O grande questionamento aqui é a escolha do objetivo de um clube esportivo: ele deve ser um gerador de lucro e assim, ter um time de menor qualidade (maximizar lucro) ou ele deve investir o máximo possível em excelentes contratações, mas ter um caixa comprometido (maximizar vitórias)?


Tudo depende do modelo esportivo que está inserido. O modelo americano prega que o clube, acima de tudo, deve ser um gerador de lucros. O esporte é encarado como negócio e os gestores fazem diversos esforços para visualizar oportunidades e tornar seu clube rentável, e ao mesmo tempo, competitivo. O formato de liga permite esta organização, já que não existe perigo de queda e um clube pode escolher “apanhar” durante um ano para ser muito competitivo no próximo.


O modelo europeu parte da premissa que o Estado é o grande responsável por fornecer atividades esportivas para a população. Assim, clubes esportivos são destinados a disputas de alto desempenho e contam com repasses governamentais para sobreviverem. Existe perigo de queda e possibilidade de ascensão, logo, o espaço para bobear é muito menor. Outros temas estudados são Teoria de Competições (todos contra todos x mata-mata) e aplicações de Teoria de Jogos ao esporte (pênaltis e saques no tênis).


O segundo tema principal é a Organização Industrial. Por meio de análises de estática comparativa, buscamos compreender qual é o efeito de regulamentações em competições e participantes. Será que dividir as receitas de transmissão do Brasileirão de maneira igualitária pode fazer novos times serem campeões brasileiros?


Outra vertente deste tema é a análise de equilíbrio competitivo de torneios esportivos. A ideia é que, quanto mais um campeonato é equilibrado, mais ele se torna atrativo (pela chance de ter vários times campeões) e maior receita é gerada, por meio de maior comparecimento aos estádios e mais gente assistindo aos jogos (a partida vira um produto interessante e as marcas vão pagar mais para serem vistas pelos torcedores). Os principais artigos focam na comparação entre diferentes esportes ou entre diferentes ligas de um mesmo esporte⁵. O Campeonato Brasileiro de Futebol é realmente o mais equilibrado do mundo? Do mundo, é difícil afirmar, mas dentre as principais ligas europeias, ele é o mais equilibrado⁶.


O terceiro tema de grande importância na Economia do Esporte é o Impacto Socioeconômico de Megaeventos Esportivos. Os focos de atenção aqui são, inevitavelmente, os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo de Futebol. Os artigos aqui fazem uma análise do retorno (ou não) obtido por um país com a realização destes eventos. De maneira geral, os eventos não se pagam, mas existem evidências de que eles podem aumentar o nível de felicidade de uma nação⁷.


Por último, falamos sobre Mercado de Trabalho no Esporte. Aqui são respondidas clássicas perguntas se os salários pagos a atletas são justos ou não; se existe discriminação salarial entre atletas em gênero e raça; qual a produtividade de um atleta, dentre outras perguntas quentes.


Uma leitura que abre completamente a mente é The Wages of Wins, de Berri, Schmidt e Brook⁸. Os autores introduzem o modelo de vitórias produzidas (wins produced) por um atleta. O que torna um atleta valioso não é somente o número de pontos que ele produz, mas todas as ações que ele toma ao longo da partida que são correlacionadas com vitórias e ações que ele não toma que impactam negativamente no resultado final. Vamos para um exemplo no basquete: uma atitude que ajuda na vitória é rebotes conquistados, pois rebotes tornam-se posse de bola, e com mais posse de bola, a chance de pontuar e vencer é maior. Ao mesmo tempo, perder a posse de bola resulta em chance para o adversário pontuar e a vitória fica mais longe.



No Brasil, a área ainda é pouco explorada. Existem pouquíssimos artigos brasileiros sobre o tema e os estudos normalmente são publicados em revistas científicas de Gestão Esportiva, onde possuem maior visibilidade. A mídia brasileira ainda confunde muito Economia do Esporte com Finanças Esportivas. Na Europa e Estados Unidos, o tema já é consolidado: existem matérias oferecidas em universidades, livros didáticos especializados, associações e congressos. Se você quer se aprofundar no tema, inglês é essencial.


Vejo o tema como ferramenta para estruturar diretrizes e auxiliar na gestão do esporte em governos, clubes e competições. As análises propostas são consistentes e podem oferecer um raciocínio único no gerenciamento de entidades esportivas. A área traz novos pensamentos para um mercado ainda repleto de tabus e achismos. O esporte no Brasil, mesmo com os últimos grandes eventos, ainda está em estado muito embrionário⁹ e a Economia do Esporte pode trazer novas ideias e estruturar caminhos para o Brasil figurar como potência esportiva.

Albert Liu é formado em Economia pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Já participou da Associação Atlética de sua faculdade, foi co-fundador e co-presidente da FEA Sports Business e teve experiências profissionais no Comitê Paralímpico Brasileiro, Klabin S.A. e Stone Pagamentos. Suas áreas de estudo são Economia do Esporte e Gestão Esportiva. Também já foi Diretor Financeiro do Encontro Nacional dos Estudantes de Economia (42º ENECO) USP 2016. Referências: ¹ Disponível em <https://www.fea.usp.br/economia/graduacao/o-que-e-economia>.

Acesso em 22 de abril de 2018; ² SZYMANSKI, Stefan. 2009. Playbooks & Checkbooks: An Introduction to the Economics of Modern Sports, Princeton University Press; ³ ROTTENBERG, Simon. 1956. The Baseball Players' Labor Market, The Journal of Political Economy, Volume 64,242-258; ⁴ ANDREFF, Vladimir; SZYMANSKI, Stefan. 2006. Handbook on the Economics of Sports, Edward Elgar Pub; ⁵ BERRI et al. 2005. The Short Supply of Tall People: Competitive Balance and the National Basketball Association, Journal of Economic Issues, Vol. XXXIX,1029-1041.Uma versão resumida pode ser encontrada aqui: <https://www.nytimes.com/2007/05/06/sports/basketball/06score.html>. Acesso em 23 de abril de 2018; ⁶ NAKANE e LIU. 2016. Equilíbrio Competitivo no Campeonato Brasileiro de Futebol. São Paulo: Revista de Gestão e Negócios do Esporte. Volume 1. Número 2. ⁷ KUPER, S.; SZYMANSKI, S. 2010. Soccernomics: por que a Inglaterra perde, a Alemanha e o Brasil ganham, e os Estados Unidos, o Japão, a Austrália, a Turquia - e até mesmo o Iraque - podem se tornar os reis do esporte mais popular do mundo. Rio de Janeiro: Tinta Negra; ⁸ BERRI, David J, SCHMIDT, Martin, BROOK, Stacey. 2006. The Wages of Wins: Taking Measure of Many Myths in Sports, Stanford University Press; ⁹ Disponíveis em: <https://epoca.globo.com/esporte/epoca-esporte-clube/noticia/2017/10/desorganizado-e-mau-pagador-como-o-clube-de-futebol-brasileiro-trata-seus-gestores.html> e <https://esporte.uol.com.br/ultimas-noticias/esporte-ponto-final/2018/01/05/opiniao-onde-estao-os-verdadeiros-gestores-do-esporte-brasileiro.htm>. Acesso em 23 de abril de 2018.


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