Quando iremos discutir o que realmente importa nas eleições de 2018?

Não é novidade que as eleições de 2018 se aproximam. Daqui a menos de seis meses, aos sete de outubro, teremos o primeiro turno da escolha do novo ou da nova presidente do Brasil, dentre outros cargos em disputa. Já são conhecidos vários pré-candidatos à presidência. Uma reportagem recente da BBC Brasil listou 17 nomes que podem competir [1].


O número exato de concorrentes, porém, só será sabido em 15 de agosto, quando se encerra o prazo para registro oficial de candidaturas junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No limite, os 35 partidos políticos registrados no TSE poderiam lançar candidatos próprios. No entanto, é mais provável que a quantidade real de candidatos nem chegue aos 17. Isso porque, ao anunciar pré-candidaturas, os partidos conseguem tanto avaliar suas reais chances de vitória quanto deixar claro para os demais o que têm a oferecer na barganha por coligações eleitorais.


O partido que se dispõe a coligar oferece um número potencial de votos que pode transferir, ao menos parcialmente, para a coligação, além de preciosos minutos de propaganda eleitoral na televisão e no rádio, que, no caso das eleições presidenciais, dependem do número de cadeiras que os seis maiores partidos da coligação têm na Câmara dos Deputados [2]. Por isso, espera-se que uma parte dos partidos que já anunciaram pré-candidatos estejam apenas blefando e aceitem participar de coligações, em troca de promessas de cargos em caso de vitória do bloco.


Os candidatos com maior intenção de voto no primeiro turno, segundo a pesquisa mais recente do Datafolha, são Lula (PT), Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Joaquim Barbosa (PSB), Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT), que correspondem às intenções de, respectivamente, 31%, 15%, 10%, 8%, 6% e 5% dos eleitores no cenário estimulado [3], em que o pesquisador apresenta para o entrevistado uma lista de nomes de candidatos. Esses números podem mudar muito com tudo que pode acontecer até outubro: novas revelações da Operação Lava Jato, anúncios de coligações ou candidatos, o destino de Lula — atualmente preso — e informações sobre as propostas dos candidatos que surgirão em programas, debates e propagandas eleitorais, por exemplo.


Por enquanto, não conhecemos bem as propostas dos candidatos, mesmo porque a propaganda eleitoral só pode começar oficialmente em 16 de agosto. Embora ainda saibamos pouco sobre as eleições em si, temos uma boa ideia dos desafios que o próximo chefe do Executivo irá enfrentar. A despeito de o Produto Interno Bruto (PIB) ter crescido 1% [4] e de a inflação ter diminuído, tendo alcançado em março 2,68% acumulados em 12 meses [5], a estabilização econômica ainda não melhorou a situação geral da população brasileira, pois o desemprego segue elevado (11,8% no último trimestre de 2017) [6] e a renda média dos brasileiros com rendimentos caiu de R$2.124, em 2016, para R$2.112, em 2017. Entre os 5% mais pobres, a queda da renda média foi ainda mais dramática, de R$76 para R$47 [7].


Além dos desafios econômicos que surgiram nos últimos anos, há problemas de longa data a serem enfrentados. Para citar apenas dois, há as questões da segurança pública e da educação. A taxa de homicídio por 100 mil habitantes continua a subir, tendo crescido de 26,1, em 2005, para 28,9, em 2015 [8], e cerca de 44% dos estudantes brasileiros da faixa de 15 anos avaliados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, em inglês) não atingiu o desempenho adequado em nenhuma das três áreas do exame (leitura, matemática e ciências) [9]. Para completar o quadro, não se espera que a deterioração das finanças públicas seja resolvida tão cedo. As previsões médias do Prisma Fiscal para os resultados da União ao fim de 2018 são R$135 bilhões de déficit primário e dívida pública de 75% do PIB [10].


Infelizmente, ainda estamos prestando muita atenção nas eleições em si e pouca nos problemas que estão em jogo. É necessário discutir como garantir o crescimento econômico, evitar a piora das condições de vida dos mais pobres e enfrentar a insuficiência de recursos públicos. Nesse cenário complexo, não se deve confiar em nenhum candidato que aponte soluções fáceis para os problemas do país. Os eleitores, com certeza, precisarão prestar atenção às propostas de políticas públicas dos candidatos, a como pretendem que o país pague por elas e a que seus partidos fizeram nos últimos cargos públicos que seus membros ocuparam.


Jefferson Lécio Leal é mestrando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e bacharel em Relações Internacionais e em Ciências Econômicas pela mesma instituição.

Fontes

[1] Disponível em <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-42313908>. Acesso em 21 abr. 2018.

[2] Conferir Resolução nº 23.551 do TSE, art. 48. Disponível em <http://www.justicaeleitoral.jus.br/arquivos/tse-propaganda-eleitoral-e-he-resolucao-no-23-551>. Acesso em 21 abr. 2018.

[3] Disponível em <http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2018/04/16/3416374d208f7def05d1476d05ede73e.pdf>. Acesso em 22 abr. 2018.

[4] Disponível em <https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/pib-vol-val_201704_4.shtm>. Acesso em 22 abr. 2018.

[5] Disponível em <https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/inpc_ipca/defaultseriesHist.shtm>. Acesso em 22 abr. 2018.

[6] Disponível em <ftp://ftp.ibge.gov.br/Trabalho_e_Rendimento/Pesquisa_Nacional_por_Amostra_de_Domicilios_continua/Trimestral/Novos_Indicadores_Sobre_a_Forca_de_Trabalho/pnadc_201201_201704_trimestre_novos_indicadores.pdf>. Acesso em 22 abr. 2018.

[7] Disponível em <https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/acfb1a9112a9eceedc4ea612d5aaf848.pdf>. Acesso em 22 abr. 2018.

[8] Disponível em <http://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/download/2/2017>. Acesso em 22 abr. 2018.

[9] Disponível em <http://www.oecd.org/pisa/pisa-2015-Brazil-PRT.pdf>. Acesso em 22 abr. 2018.

[10] Disponível em <http://www.fazenda.gov.br/centrais-de-conteudos/publicacoes/relatorios-do-prisma-fiscal/relatorio-mensal/2018/relatorio-mensal-2018_04.pdf>. Acesso em 22 abr. 2018.


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